segunda-feira, 14 de março de 2016

Suportar E A Lei Da Minha Raça

Já hesitei muitas vezes antes de entrar em qualquer discussão racial. Já perdi muito amigo defendendo política de cotas. Estudei muita história social/cultural para entender alguns processos e desconstruir discursos. Nunca participei dos movimentos negros, não sou a favor dos extremos, mas nem por isso fechei os olhos para as diferenças e todo dia 20 de novembro prefiro pensar.


Sempre me vali das palavras de Mandela, “Eu odeio o racismo, pois o considero uma coisa selvagem, venha ele de um negro ou de um branco”. As separações não são naturais, foram criadas, inventadas, legitimadas sob a face de tradição, como se fossem inveteradas e imutáveis. Condenamos nossos negros a 300 anos de escravidão e há mais de 500 de inferioridade, em educação, em oferta de emprego, em moradia, em saneamento básico, em respeito.



Cotas não são reparo social, cotas são políticas afirmativas. Com quantos negros você trabalha? Com quantos negros você estudou? A argumentação contra é sempre baseada em se oferecer uma melhor educação desde a infância, o que é incontestável. Mas a questão que fica é o que eu faço com essa geração? Os condeno ao subemprego? Ou espero que superem todas as dificuldades que lhes foram impostas? O professor e juiz federal Wiilian Douglas melhor definiu a situação. "Conheço vários heróis, negros, do Supremo à portaria de meu prédio. Apenas não acho que temos que exigir heroísmo de cada menino pobre e negro desse país”.




Somos uma nação miscigenada, motivo de orgulho quando pisamos fora das fronteiras. O discurso clássico quando se questiona a classificação racial no país é: "Mas quem é negro ou branco no Brasil? Eu posso escolher ser o que quiser". Sim, é possível, a questão racial em termos antropológicos pode ser vista por processos identitários que envolvem critérios de aproximação, afetividade e assimilações - ou seja, em tese qualquer um pode se declarar negro. Mas e nossas periferias? Também podem escolher?



E podemos sair da subjetividade, seguir com estatísticas. Os dados revelados no último Mapa da Violência, de 2012, deixam claro que “a tendência geral desde 2002 é: queda do número absoluto de homicídios na população branca e de aumento nos números da população negra”. Segundo a divulgação, morreram 65% a mais de negros do que brancos no Brasil. O índice piora quando a idade é entre 12 e 21 anos, para cada 100 mil habitantes morreram 37,3 brancos, enquanto a taxa de negros é de 89,6 mortos para os mesmos 100 mil. Façam suas contas, para cada branco assassinado, morreram 2,3 negros, será que vivemos mesmo em igualdade racial?  




Nem todo mundo escolhe se é preto ou branco, são dois pesos e duas medidas. Eu (felizmente) pude, tive muitas oportunidades, estudei em boas escolas, assim como parte da elite que insiste em repetir a argumentação da miscigenação. Tenho muito orgulho de fazer bom uso da frase do meu querido e negro avô, “passou de branco, preto é”. Carrego minha cor, meu cabelo e minha história. Mas todo pobre e preto nesse país sabe muito bem quem é quem e não escolheu.



Se alguém discorda das cotas, me perdoe, mas não devem fazê-lo olhando os livros e teses, ou seus temores. Livros, teses, doutrinas e leis servem a qualquer coisa, até ao nazismo. Temores apenas toldam a visão serena. Para quem é contra, com respeito, recomendo um dia “na cadeia”. Um dia de palestra para quatro mil pobres, brancos e negros, onde se vê a esperança tomar forma e precisar de ajuda. Convido todos que são contra as cotas a passar conosco, brancos e negros, uma tarde num cursinho pré-vestibular para quem não tem pão, passagem, escola, psicólogo, cursinho de inglês, ballet, nem coisa parecida, inclusive professores de todas as matérias no ensino médio. (Willian Douglas em http://www.pragmatismopolitico.com.br)



O mesmo convite fez a professora Jane Elliott, de Riceville, Iowa, a seus alunos em 1969 quando decidiu mostrar-lhes de forma empírica o que era discriminação e quais eram os prejuízos que causava às pessoas. Elliott criou o exercício “Olhos azuis/Olhos castanhos” , 30 alunos foram divididos pela cor dos olhos, no primeiro dia, a professora disse aos meninos de olhos azuis que eles eram mais espertos, mais bonitos, mais limpos e melhores do que os de olhos castanhos. 
Durante todo o dia a professora elogiou-os e concedeu-lhes privilégios, enquanto que os meninos de olhos castanhos, além de terem de usar um colarinho, tiveram os seus comportamentos e resultados criticados e ridicularizados. No dia seguinte, os papeis inverteram-se, os alunos de olhos azuis a serem considerados os “inferiores” em relação aos de olhos castanhos.




A professora fotografou e avaliou o desempenho de cada grupo durante o exercício, revelando a queda de aprendizagem nas crianças discriminadas. A experiência virou documentário, ganhou publicidade e inúmeras críticas. “Como te atreves a experimentar aquela crueldade com crianças brancas; as crianças pretas crescem habituadas a tal comportamento, mas as crianças brancas não conseguem compreendê-lo. É cruel para as crianças brancas e vai causar-lhes graves danos psicológicos”. Eis o senso comum, negros podem ser inferiorizados e ridicularizados, afinal aprenderam a viver com poucas – ou nenhuma - oportunidades. 20 de novembro, prefiro pensar.

“Eu já suportei demais o seu escárnio. Suportar é a lei da minha raça. Eu sou negro, sou negro sim. Mas por acaso negro não tem olhos? Negro não tem mãos, não tem pau, não tem sentidos? Não come da mesma comida? Não sofre das mesmas doenças? Não precisa dos mesmos remédios? Quando a gente sua, não sua o corpo tal qual um branco? Quando vocês dão porrada na gente, a gente não sangra igual? Quando vocês dão tiro na gente, a gente não morre também? Pois se a gente é igual em tudo, também nisso vamos ser...” (Lázaro Ramos em cena de Ó Pai Ó)
Texto de: Tatiana Coêlho